Helivelton Campos - Processo Criativo

Após um breve hiato nas postagens, trazemos um texto do compositor e violinista paulista Helivelton Campos, da EMESP.


Já venho há um tempo trabalhando nessa peça para as aulas de composição da EMESP,  e tive a felicidade de, no meio do percurso, ser selecionado para participar do Curto-Circuito, o que foi uma ótima noticia pois é bom saber que a peça não vai diretamente pra gaveta após finalizada. Cheguei a cogitar a opção de começar uma nova música do zero porém decidi utilizar o mesmo projeto para o festival por acreditar que o material desenvolvido até aqui tem potencial para se tornar algo interessante.

Sobre a escolha do instrumento e do material harmônico

“Aaa....insensatez....que você fez...”

“Aaa....insensatez....que você fez...”

Quando comecei a assistir as aulas de criação musical na EMESP e surgiu a proposta de escrever para um instrumento solo a primeira dúvida que tive foi quanto à escolha do instrumento. Como estou numa fase de me propor desafios descartei o violão, pois é o instrumento para o qual mais escrevi desde que me iniciei na composição. Não me lembro exatamente o porquê, porém no vai e vem dessa estória acabei escolhendo o sax alto.

Ok! Primeiro ponto resolvido, a próxima questão viria à ser: “ qual material harmônico usar?”

Nesse ponto posso dizer que realmente esbarrei no material a ser usado na peça estudando o prelúdio nº 4 de Chopin (aquela parecida com a canção “Insensatez” do Tom Jobim). Gosto muito da forma como o acorde de do aumentado surge no compasso 9 e decidi que este seria o ponto de partida, após isso gerei uma série com base nos intervalos do acorde e passei a aplicar alguns filtros nesta com o intuito de multiplicar as possibilidades de utilização do material. Esse simples processo me resultou, alem de uma serie, a qual não pretendo usar estritamente na peça, alguns conjuntos de notas com os quais criei pequenos segmentos melódicos que são usados durante a música.

Série gerada a partir do acorde de DÓ aumentado

Série gerada a partir do acorde de DÓ aumentado

 

O que pretendo fazer com isso

Tenho o hábito de compor pensando em “ambientes”/“atmosferas” e nesta peça não esta sendo diferente. Inicialmente pensei em criar duas seções: uma seção longa que se inicia com uma linha calma, e um pouco introspectiva, ao meu olhar, que começa a apresentar oscilações e , aos poucos, se transforma num objeto complexo, e outra um pouco mais curta onde haja uma predominância de blocos sonoros (multifônicos) que apresentem uma reminiscência dos elementos harmônicos presentes na seção anterior. Creio que este ultimo trecho vá soar como um coral.... ao menos espero obter esse resultado.

 “...tinha uma pedra no meio do caminho...”
                        problemas durante o processo

Motivo

Motivo

 

Minha maior dificuldade durante o ato de compor, é manter um discurso que apresente unidade. Por estar trabalhando com um material que resulta num sistema atonal, sinto a necessidade de tomar o dobro de atenção com o desenvolvimento das idéias no tempo, pois quero que meu “discurso”, no final das contas, seja o mais inteligível possível para o público. Porem é muito comum eu ir escrevendo, escrevendo e quando paro para solfejar a última frase ou os últimos 10 segundos de música : “uou, acho que estou fugindo do assunto”. Normalmente depois disso, vou tentando enxertar o motivo nessas frases “errantes” e se não soar bem apago esses trechos e recomeço do zero.

Outra questão que me veio em alguns momentos foi: Como lidar com essa linha melódica?
Fiquei divido entre trabalhar com uma linha mais gestual, como na Sequenza VII, para oboé, ou com uma linha que vai explorando regiões menores da tessitura do instrumento como na Sequenza XII, para fagote, (ambas obras de Luciano Berio). Optei pela primeira opção mas ainda estou experimentando com essa idéia de trabalhar utilizando uma pequena região da tessitura e ir a explorando no decorrer do tempo.

Bom, os problemas são vários mas aos poucos vou obtendo resultados.

Espero vocês no concerto!

João Batista de Brito Cruz - Processo Criativo

Dando continuidade à serie de posts sobre o processo criativo, hoje trazemos um belo texto do compositor, saxofonista e pesquisador, João Batista de Brito Cruz. João também participa do Curto-Circuito através da EMESP.


PROJETO E PROCESSO COMPOSICIONAL


ESTRUTURA
A peça será para um duo de Sax alto e piano e procura representar em uma realidade acústica uma réplica mais (ou menos) livre da sonoridade da fala humana. 

ANÁLISES PRELIMINARES – REGRAS DO JOGO
Para tanto, é necessário o desvendamento sobre qual a lógica sonora (e não simbólica) qualitativa dos processos da fala. Quais são os intervalos típicos da entonação? A que entonação eles se referem? Qual as componentes rítmicas mais recorrentes nesse tipo de discurso? Como elas se articulam ou não com a entonação descoberta?
A partir dessas descobertas feitas em análises preliminares, estarão construídas uma série de leis (tomando esse termo em um sentido mais meigo) que permearão a peça toda, não como materiais, mas como regras de um jogo composicional.

1.    Exemplos de análise
Exemplo 1a. Análise espectral de perfil rítmico de uma frase. 
Frase: “Meu irmão tem medo do escuro” 

Resultante espectral geral da frase “meu irmão tem medo do escuro”

Separação dos fonemas em segundos aproximados
1)    MEU – 1,26’’ até 1,50’’ (0,24’’)
2)    IR – 1,5 até 1,72’’ (0,22’’)
3)    MÃO – 1,72’’ até 2,0’’ (0,28’’) – [ MÃ  = 0,18’’; O = 0,1’’]
4)    Pausa de 0,09’’ 
5)    TEM – 2,09’’ até 2,32’’ (0,23’’)
6)    ME – 2,32’’ até 2,45’’ (0,13’’)
7)    DOIS – 2,55’’ até 2,75’’ (0,2’’)
8)    CU – 2,75’’ até 2,925’’ (0,175’’)
9)    RO – 2,925’’ até 3,05’’ (0,125’’)

Desdobramento dos valores em aproximações rítmicas. 
Tentativa 1) Semínima está para 1 como colcheia para 0,5 e semicolcheia para 0,25, etc.
Valores a serem alcançados: 0,09; 0,125; 0,13; 0,175; 0,2; 0,22; 0,23; 0,24; 0,28.

0,9 semelhante à semifusa pontuada – 1/16 + 1/32 = 0,0925    
0,125 e 0,13 semelhantes à fusa – 1/8 = 0,125    
0,175 semelhante à fusa pontuada – 1/8 + 1/16 = 0,1875    ou à tercina de semicolcheia – [1/4] x 1/3 = 0,16    
0,2 e 0,22 semelhante à fusa duplamente pontuada – 1/8 + 1/16 + 1/32 = 0,21875    
0,23 e 0,24 semelhante à semicolcheia – ¼ = 0,25    
0,28 semelhante à tercina de colcheia em staccato tenuto – 1/3 – aprox. 0,05 = aprox. 0,28

Assim:

Exemplo 1b. Análise espectral de perfil melódico da mesma frase

 

    - 1º passo: Expor complexidade espectral. 

1. MEU- B2 glissando até E3 ou seja: B2, C3, C#3, D3, D#3, E3.      
2. IR – E3, Eb3, F3. Bb2, D3, C#3, C3.    
3. MÃO – C3 até F#3.     
4. TEM – F3 e E3    
5. ME -  Simultaneidade de três movimentos: F3-E3 C#3-D3 e Bb2-D3
6. DOIS – E3-Eb3.    
7. CU – F#3, D3, C#3, B2.    
8. RO – B2, Bb2.

A transposição quinta acima desses âmbitos somada a eles compreende mais que suficientemente sua complexidade. 

Redução para 1 nota por fonema.

 

Redução para duas ou mais notas por fonema.

 

DESDOBRAMENTO DA ANÁLISE EM MÚSICA
São dados alguns cenários acústicos relativos à sonoridade da fala que funcionarão, como veremos, como forma da peça. Esses cenários são três, relacionados diretamente com o conceito de Charles S. Peirce de categorias universais (primeiridade, secundidade terceiridade): 
1) a fala nela mesma – o uníssono remático antes de uma articulação reativa com um existente. Quali.
2) a pergunta e a resposta – possibilidade responsorial na qual há uma articulação entre duas falas e um eco de uma primeira em uma segunda sucessivamente. Como possibilidade contrapontística, quando uma pergunta é feita, ela não deixa de existir enquanto gesto, pois a memória de sua existência gera sua resposta. Sin.
3) a multidão – sobreposição de inúmeras falas, tornando-se indiscernível a compreensão de uma linha ou outra. Poeticamente e musicalmente, essa realidade assemelha-se aos complexos motetos renascentistas ou à qualquer leitura de multidão como realidade desordenada. Legi – geral.
Esses três cenários articularão-se entre si sem uma cesura definida, mas em um fluxo onde um transformar-se há no outro numa ordem ainda não definida. É possível dizer, porém, que há uma fuga da ordem 1-2-3, já que essa resultaria numa direcionalidade óbvia que deriva de uma proposição muito diacrônica de fruição. Assim, misturar esses cenários na medida do possível é, ao mesmo tempo, negar uma ilusão de fruição diacrônica do tempo, articulando-o com a sincronicidade real.

Gustavo Bonin - Processo Criativo

Hoje damos início à série de postagens intitulada "Processo Criativo". Nesses posts, convidamos os participantes do Curto-Circuito a compartilhar um pouco sobre os estágios iniciais de seus trabalhos. Começamos por Gustavo Bonin, compositor, clarinetista e arranjador, natural de Criciúma-SC. O que segue são as palavras - e rascunhos! - do próprio Bonin, que é participa do Curto-Circuito através da EMESP


Processo de composição.

A peça será para sax soprano solo, trabalhando com gestos cênicos: explorando principalmente a respiração.

Caderno de Rascunhos de Gustavo Bonin. Clique para ampliar.

A ideia parte de um texto de Greimas, um semioticista lituano, que ao descrever algumas doenças identifica velocidades e intensidades, um tempo e sua reiteração, internos à doença específica. Partindo daí a ideia é construir objetos sonoros/cênicos para um número X de doenças respiratórias escolhidas, por exemplo: Tuberculose, Pneumonia...etcc (provavelmente poucas, 3 ou 4)

Como "forma" geral da peça até agora, a ideia é de um processo de relaxamento, ou de cura, para ficar mais simbólico.

- Partirá desses "objetos doenças" - blocos fixos, separados e sem sequência fixa no tempo - de onde o interprete poderá escolher a ordem e o lugar no espaço em que poderá executar. Essa é a primeira parte, em que o interprete vai em direção ao palco. 

 - Seguindo esse processo, já no palco, esses objetos vão se dilatando até que o material se torne mais estático e as respirações/gestos cênicos sejam mais calmos, e enfim até que o interprete use da respiração circular para criar um ambiente quase ilusório de não-respiração.

 - A interprete vai de uma zona de desconforto a um estado de relaxamento meditativo.

Clique para ampliar.

Geração de material: (não necessariamente nesta ordem)

- Escolhas das doenças e análise de sintomas, escalonando velocidades e intensidades.
- Geração simbólica/cênica das representações das doenças escolhidas. 
- Geração rítmica.
- Escolha de poucos multifônicos principalmente para os corais mais estáticos da parte do relaxamento.
- Uso das alturas e espectros a partir desses multifônicos.

Gustavo Bonin (direita), em reunião realizada na EMESP no dia 18/06.

Gustavo Bonin (direita), em reunião realizada na EMESP no dia 18/06.

Início das Atividades

Reunião com os compositores da UNICAMP

Quinta, dia 11, e segunda, 15, foram dias marcados pela inauguração dos ateliês de composição com os 15 compositores na 2ª edição do Curto Circuito. As atividades começaram em ambas, UNICAMP e EMESP. Foi uma oportunidade legal para conhecer-mos uns aos outros e dar início à troca de referências: um rico material de escuta já está sendo debatido e pontuado pelas questões composicionais que suscitam. Em breve teremos algo brotando por aí.

Uma das ideias (a mais fundamental, por detrás do Curto Circuito) é prover um espaço de acolhimento coletivo voltado à pedagogia do ensino da composição musical, onde alunos e professores, criadores e intérpretes, dão forma as trocas de idéias, saberes e experiências referentes à criação musical em cena na atualidade do mundo contemporâneo.

'Alter Ego', para saxofone tenor, de Georges Aperghis

Outra novidade se faz anunciar aqui: nesta 2ª edição se pretende trazer à tona a cronologia do que andam fazendo os participantes da edição passada. Os compositores que por aqui passaram deixaram suas marcas naquilo que define o projeto, a saber, o senso de coletividade que o leva adiante. Portanto, não se poderia deixar de registrar os últimos feitos desses primeiros desbravadores. Para isso um blog está sendo montado onde se irá divulgar os trabalhos e produções de todos os participantes, antigos e novos.

Hoje damos início a este segundo movimento; que resultará novamente numa produção de compositores jovens em diálogo com as praticas de performance (e seus intérpretes) no contexto das realidades que as define.

Parabéns aos aprovados; foco e concentração nas sete semanas intensidade que estão por vir.

André Ribeiro / André Mestre

Curto-Circuito Newsletter

Programa - Allison Balcetis interpreta a peça Linha de Sombra, de André Ribeiro, em Taiwan.

Olá a todos e bem vindos ao blog do Curto-Circuito! O site foi colocado no ar ontem, juntamente com os editais de inscrição (aqui: UNICAMP, EMESP). Muito legal dar esse passo e já ver as inscrições chegando. Todos os envolvidos estão super ansiosos para o começo das atividades.

Bom, enquanto o trabalho composicional não começa, pensamos que seria legal olhar pra trás, para o que rolou na carreira do pessoal que participou da primeira edição. Infelizmente não temos como saber de todos os concertos, prêmios, estreias e comissões, então contamos com o pessoal que participou para enviar suas boas-novas. 

- Como é de costume, Allison Balcetis teve uma agenda cheia esse ano. Ela continua encabeçando o estúdio de saxofone na Universidade de Alberta, onde ela orienta alunos desde a graduação ao doutorado. Os concertos também foram muitos, solo e câmara: e ela marcou presença na North American Saxophone Alliance Conference; no concerto 'Joining Forces', com o clarinetista Don Ross; e no concerto 'What Boudaries?', tocando trabalhos dos professores do departamento da Universidade de Alberta; vale ainda mencionar que Allison trouxe consigo peças que foram escritas para o curto circuito como Linha de Sombra, do compositor André Ribeiro, que recebeu performances em Calgary (Canadá) e em Taiwan.

Yemanjá, para saxofone preparado

- Desde a primeira edição, dois compositores que estiveram conosco receberam prêmios por seus trabalhos. O compositor Clayton Ribeiro (1a Ed. CMU) foi contemplado com o prestigioso Prêmio Funarte de Composição Clássica 2014 na categoria Solos e Duos; ainda sobre o Clayton, sua peça escrita para o Curto-Circuito, Micr-Atos, foi selecionada para a 27ª edição do Panorama da Música Brasileira. O outro compositor premiado foi Luciano Nazario (1a Ed. UNICAMP), cuja a peça Canção de Ninar foi vencedora do I Concurso de Composição para Banda do Conservatório de Tatuí; mais notícias legais do Luciano: em Agosto (dias 12 e 13) seu Concerto para Vibrafone e Orquestra receberá a sua estreia pela Sinfônica da UNICAMP, com o solista Fernando Hashimoto e regência de Knut Andreas (Alemanha)--mais informações no site do compositor.

- Mais sobre o compositor André Ribeiro, nosso Coordenador Pedagógico: em Agosto ele se junta ao IdA, Instituto de Artes da Universidade de Brasilia como professor de composição; André segue também como professor da EMESP Tom Jobim. Outro membro da equipe do Curto-Circuito, o compositor e saxofonista Manuel Falleiros tocou, em Fevereiro, sua peça Yemanjá na Casa França-Brasil como parte de um concerto da Happenings. Por último, receberam estreias as peças Pange Lingua, para fagote amplificado (Chris Watford, Boston) e Corpo Confesso/µ, para quarteto de cordas (JACK Quartet, Boston; Amber Quartet, Pequim) do compositor André Mestre

Amber Quartet toca a peça Corpo Confesso-µ durante o Beijing Modern Music Festival